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  • Peri Dias

Primeiro assédio: campanha mostrou que abusos começam cedo



Com que idade as brasileiras são alvo do seu primeiro assédio sexual? Em 2015, uma campanha nas redes sociais iniciada pelo grupo feminista Think Olga, a Primeiro Assédio, revelou um dado importante: no caso das mais de 3 mil mulheres que espontaneamente contaram ter sido assediadas quando crianças ou adolescentes e que informaram a idade em que isso aconteceu, a média foi de 9,7 anos.

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Como disse a própria criadora da campanha, Juliana de Faria, fundadora do Think Olga, a informação de que as meninas são assediadas  desde muito cedo na vida não chega a ser surpreendente. Basta conversar com algumas mulheres sobre o assunto, para descobrir histórias tristes de como muitos homens adultos frequentemente fazem comentários sexuais, proferem cantadas ou tocam inapropriadamente o corpo de pessoas tão jovens que sequer entendem exatamente o que está acontecendo.

Tão ou mais preocupante é o dado relacionado à origem desses abusos: nesse mesmo levantamento, 65% das agressões compartilhadas na mobilização do Primeiro Assédio foram cometidas por conhecidos das vítimas, o que inclui pais, padrastos, tios, primos, amigos da família, professores ou vizinhos, por exemplo.

Os dados divulgados pelo Think Olga não foram coletados por meio de uma metodologia científica de pesquisa – e nem era essa a pretensão da organização ao verificar essas informações. Porém, eles dão uma amostra do quanto o assédio sexual é comum na vida de meninas e adolescentes e do quanto o assunto ainda é tabu. Para boa parte das mulheres que tiveram a coragem de compartilhar suas histórias, aquela foi a primeira vez em que elas se sentiram encorajadas a falar sobre o tema.


Como surgiu a campanha Primeiro Assédio


A mobilização teve início quando Valentina Schulz, uma garota de 12 anos que participava do programa MasterChef Júnior, o reality show da TV Bandeirantes em que crianças e adolescentes disputam o título de melhor chef mirim de cozinha, foi citada em posts de cunho sexual nas redes sociais, por usuários anônimos. Um dos comentários foi: “ Essa Valentina com 14 anos vai virar aquelas secretárias de filme pornô”. Outro internauta escreveu: “Sobre essa Valentina: se tiver consenso, é pedofilia?”. Um terceiro usuário postou “#valentinanaplayboy”. Em apoio à garota, a fundadora do Think Olga compartilhou em seus perfis um relato dos assédios que ela, Juliana, sofreu quando era pré-adolescente, junto da hashtag Primeiro Assédio, e sugeriu que mais mulheres contassem situações similares pelas quais passaram. A ideia era evidenciar o quanto essa violência é frequente e reduzir o isolamento e a culpa que muitas mulheres assediadas carregam.

“(Compartilhar seu caso de assédio) Não é uma missão simples, indolor, fácil. Mas se apoderar da própria história é importante, de forma que a vítima assim se reconhece como vítima. Não é vitimismo. É o empoderamento de enxergar que a opressão é, de fato, uma opressão e não “parte da vida”. Este é o primeiro e mais importante passo para a mudança”, diz Juliana, no site do Think Olga. Imediatamente, a campanha viralizou. Em um dia, a hashtag Primeiro Assédio (#primeiroassedio) foi usada mais de 80 mil vezes no Twitter. Juliana deu entrevistas para alguns dos veículos de imprensa mais importantes do Brasil e, algum tempo depois, a mobilização passou a receber depoimentos também em inglês, escritos por mulheres de diversos países.

Para a fundadora do Think Olga, a onda de depoimentos e debates sobre o tema, em 2015, foi o começo de uma reação coletiva à realidade do assédio contra meninas e jovens. “Demos ali a largada a um movimento catártico e gigantesco de mulheres que, em até 140 caracteres, ajudaram a mostrar que o que aconteceu com a cozinheirinha de 12 anos é a simples realidade das meninas brasileiras. E o quão absurdo é que uma criança tenha que passar por isso”, ela escreveu, no site da organização.


Raízes do primeiro assédio estão na sexualização e no machismo, diz ativista


Diante de sinais evidentes de que o assédio sexual na infância e na adolescência é mais frequente do que se costuma pensar, uma das questões que grupos como o Think Olga e ONGs de proteção à criança e ao adolescente tentam responder é: “Como combater esse assédio desde sua origem?”.  

Para Juliana de Faria, um dos fatores que levam à naturalização dos abusos contra meninas é a imagem sexualizada de jovens garotas que se difunde em filmes, revistas, séries e na publicidade.

Homens são vistos como meninos para sempre. Se homens assediam uma mulher russa, pedindo para ela falar da sua vagina, só para eles gravarem um vídeo ridículo, os comentários são: “ah, mas são jovens que estavam bêbados”. Com as meninas é diferente. Desde muito cedo, elas são vistas como mulheres, como pessoas capazes de dar consentimento a uma abordagem de cunho sexual ou de seduzir os homens. Com pouca idade, elas são tragadas para uma vida de sexualidade adulta”, ela afirma.

Entrevistado pelo Blog do Veduca, o especialista em atendimento clínico a crianças e adolescentes Hélio Deliberador, professor de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, também aponta a sexualização precoce dos menores de idade como uma das raízes da naturalização do assédio. “Nossa sociedade muitas vezes erotiza excessivamente a infância e vive usando esse estímulo para o consumo. Isso coloca tempero no caldo cultural que leva a situações como a do abuso”, ele afirma.

O professor Deliberador, aliás, será o entrevistado de um dos próximos posts do Blog do Veduca sobre assédio sexual de crianças e jovens. Não perca!


Saiba mais sobre a campanha Primeiro Assédio e outras mobilizações relacionadas


– O Veduca lançou o curso online gratuito Assédio Sexual: Prevenção e Combate. Fique ligado e assista! – A garota Valentina Schulz, alvo de comentários de pedófilos quando participava do MasterChef Junior, em 2015, gravou um vídeo, quase três anos depois do episódio, para contar como ela soube do assédio virtual contra ela.



– O documentário curta-metragem Primeiro Assédio, que não tem relação com o Think Olga, está disponível no YouTube. Por meio de depoimentos de jovens mulheres, é possível entender o impacto do assédio na vida das vítimas. Veja abaixo.




Que tal ler os posts anteriores do Blog do Veduca sobre assédio sexual?


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