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  • Peri Dias

Machismo e assédio: “instituições têm que mudar para combater abusos”



Machismo e assédio sexual são problemas irmãos, quando se trata da forma como as instituições brasileiras lidam com o tema, na visão da advogada Nathália Waldow, co-fundadora da Associação das Advogadas pela Igualdade de Gênero e sócia da Women Friendly, primeira empresa da América Latina a certificar negócios que atuam para eliminar o assédio sexual de seus ambientes de trabalho e consumo.

Nathália afirma que visões machistas muitas vezes permeiam a atuação de policiais, juízes, advogados e legisladores que atuam na criação e no cumprimento das leis contra os abusos. Segundo ela, são recorrentes, em delegacias e tribunais, comportamentos como relacionar o assédio às roupas que a vítima estava usando ou questionar se a pessoa assediada foi clara o suficiente quanto a não querer o avanço do assediador. Isso incentiva as mulheres a ficarem caladas e estimula os homens abusadores a repetir suas atitudes invasivas, ela diz.

Com o objetivo de contribuir para o diálogo sobre assédio sexual e de estimular soluções para o problema, o Veduca lançou o curso online grátis Assédio Sexual: Prevenção e Combate. Criados em parceria com a Women Friendly, os vídeos do curso abordarão definições, causas e consequências do assédio sexual, além de mostrarem como corporações e estabelecimentos podem trabalhar para tornar seus ambientes mais seguros para consumidoras e funcionárias.


Como parte dessa série, Nathália Waldow explicou, no post anterior, sobre as lacunas para o cumprimento da legislação brasileira que trata de assédio.


Você acompanha a seguir a continuação da entrevista, que desta vez abordará a relação entre machismo nas instituições públicas e assédio sexual.


Nas instituições brasileiras, machismo e assédio estão interligados, diz advogada


Ônibus circula em rua da Zona Sul do Rio de Janeiro: passageiros do transporte público podem ajudar a denunciar assédio sexual nos coletivos e mostrar que a sociedade não tolera mais abusos às mulheres, diz advogada



Advogada Nathália Waldow, co-fundadora da Associação das Advogadas pela Igualdade de Gênero e sócia da Women Friendly

Blog do Veduca – Como o Brasil se encontra, na comparação com outros países, no que diz respeito à legislação sobre assédio sexual e ao funcionamento da Justiça para esse tipo de crime? Nathália Waldow – É difícil comparar, mas há exemplos de países mais avançados nessa questão e também exemplos negativos. A cultura explica, em boa medida, as posições que os países adotam frente ao assédio, e o Brasil ainda é machista. Um exemplo de país que combate o assédio com mais efetividade é o Canadá, que tem uma legislação anos-luz à frente da nossa nas questões femininas de modo geral, como a da licença-maternidade.

Mesmo nos Estados Unidos, onde o problema do assédio sexual ficou tão evidente nos últimos anos, há uma atitude mais respeitosa com a mulher do que no Brasil, em relação às abordagens em lugares públicos, por exemplo. Vou contar um caso só para ficar em um exemplo próximo, que não é estatístico, mas revela um pouco da experiência que nós, brasileiras, vivenciamos quando vamos para o exterior. Tenho uma prima que foi estudar em uma universidade americana e que um dia comentou comigo que estava impressionada com as roupas que as alunas da universidade usavam para ir à aulas nos dias muito quentes. Para ela, era difícil escolher suas roupas sem pensar se os homens na rua ou na própria faculdade iam dizer algo, mas ela via que as mulheres da universidade onde ela estudava não estavam pensando nisso. “Elas usam shorts, blusas curtas, saias – e elas são respeitadas, ninguém fica mexendo com elas!”, ela me contou. E ela estava surpresa com isso. Então, não adianta virmos só com a lei, que é importante, mas não suficiente. Temos que trabalhar toda a cultura da violência contra a mulher.

Blog do Veduca – E em relação aos países que são exemplos negativos de machismo e assédio, quais você destacaria? Nathália Waldow – É um problema que existe em todo lugar, mas recentemente a Rússia chamou minha atenção por aprovar leis que me parecem absurdas. Eles definiram, por exemplo, que se um episódio de violência doméstica não causar hematomas ou machucados visíveis, não será definido como agressão, mas como uma questão só do marido com a esposa. Nesse quesito, o Brasil tem uma lei maravilhosa, a Maria da Penha, que é um exemplo internacional. É verdade que ela veio por uma imposição de um organismo internacional, mas é uma boa legislação. Ainda assim, a violência doméstica continua a ser um problema grave no Brasil. Quer dizer, a lei, isoladamente, não protege a mulher, temos que construir uma cultura menos machista.

Blog do Veduca – O machismo afeta a forma com a Justiça atua, em casos de assédio sexual? Nathália Waldow – Sim, afeta a forma como o Estado lida com todas as questões relacionadas à mulher. O machismo se mostra, por exemplo, na aplicação da Lei Maria da Penha. Na delegacia, muitas vezes perguntam à mulher que foi denunciar uma agressão se o marido estava estressado, se a vítima o provocou. Já o Poder Judiciário muitas vezes tenta mediar os conflitos entre marido e mulher, inclusive quando há agressão física. A gente sabe que, no caso de um agressor, não deveria existir mediação para que o casal volte a estar junto. Pelo contrário, o agressor tem que ser afastado da mulher que ele agride, porque inúmeros casos mostram que a agressão é gradual, ela vai crescendo até chegar ao assassinato da mulher que havia sido agredida. A própria opinião pública muitas vezes critica o termo “feminicídio”, questiona por que se deve diferenciar o assassinato da mulher pelo companheiro, em relação a outros assassinatos. A resposta, nesses casos, é que as vítimas são mortas justamente por serem mulheres.

Blog do Veduca – As instituições precisam ser reformuladas, nesse sentido? Nathália Waldow – Precisam. Um outro exemplo de como o machismo atua nas instituições é a forma como lidamos com o acolhimento à vítima de estupro. Cuidei de um caso de estupro, uma vez, em que a vítima teve que ir ao hospital fazer exames e ser atendida, de lá teve que se deslocar ao IML para mais exames, em seguida teve que passar pela conversa com a Polícia, tudo isso depois de ser estuprada. Naquele momento terrível, ela tinha que passar por vários órgãos públicos e compartilhar em detalhes tudo o que tinha se passado para cada nova pessoa que ela encontrava. Por que não se criou um sistema unificado para receber as vítimas de estupro, em que a mulher não precise reviver aquilo tantas vezes e nem ficar tanto tempo indo de um lugar ao outro? A resposta é: porque o sistema de acolhimento foi criado essencialmente por homens, que não são as vítimas do problema. Precisamos de mais mulheres criando políticas para as mulheres. O sistema prisional tem outro exemplo bizarro. Em muitas prisões, não há previsão de compra de absorventes, porque o modelo de gastos para o sistema prisional feminino é o masculino. No Distrito Federal, há uma prisão onde as mulheres tem que usar miolo de pão como absorvente. É muito provável que se as mulheres criassem as políticas carcerárias, a necessidade de absorventes fosse pensada desde o princípio.

Blog do Veduca – Os advogados, juízes, procuradores e delegados do gênero masculino não estão preparados para lidar com esse denúncias como as de assédio, então? Machismo e assédio se relacionam também nessas esferas? Nathália Waldow – Há muitos bons exemplos de homens que sabem lidar com a questão. Ainda existe, porém,  um grande preconceito quando se fala em questões de gênero. O despreparo de toda a cadeia da Justiça para esses temas é razoável. Embora as mulheres tendam a olhar para temas como assédio com mais abertura, mesmo entre elas há muitos casos de falta  de empatia, não é uma questão exclusivamente dos homens. Isso cria um sistema hostil, que precisa ser reformulado, se quisermos, de fato, combater o assédio.


Leia (e assista a) mais conteúdos sobre a relação entre machismo e assédio sexual


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Uma das personalidades do YouTube mais influentes do Brasil, a jornalista Jout Jout fala sobre machismo e assédio, no vídeo abaixo, que já foi visto mais de 2 milhões de vezes. Ela convida vítimas de assédio a denunciarem os abusos, para que esse tipo de violência deixe de acontecer um dia.         



 – Que tal ler os posts anteriores do Blog do Veduca sobre assédio sexual?


Legislação sobre assédio avançou, mas tem que ser cumprida

Assédio sexual no trabalho: como a Justiça lida com o tema

Chega de Fiu Fiu: campanha viralizou, pautou o debate e virou filme

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Assédio sexual no Brasil em sete estatísticas impressionantes

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