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  • Peri Dias

Assédio na balada: conheça a festa que eliminou os abusos



Pergunte às mulheres do seu grupo de amigos se o assédio na balada ou em festas na rua, como o Carnaval, incomoda. Provavelmente, a maioria dirá que sim, e que ele é frequente. Faça a mesma pergunta aos homens do seu grupo de amigos e é possível que muitos digam que isso é mimimi. A diferença na percepção do que é assédio na balada e do quanto ele perturba é justamente uma das características desse fenômeno. Quando só o homem que faz a abordagem está se sentindo bem, é sinal de que o contato está sendo abusivo – e precisa parar.


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Sócia da Women Friendly, primeira empresa da América Latina especializada em certificar estabelecimentos e companhias que trabalham para tornar seus ambientes de consumo e trabalho seguros para todas as mulheres, a jornalista Ana Addobbati lembra que assédio é qualquer movimento de conotação sexual que gere desconforto físico ou psicológico em quem é abordado, ainda que não provoque uma marca imediata, segundo a definição da Organização das Nações Unidas (ONU). Isso inclui atitudes como passar a mão nos cabelos de desconhecidas, agarrar pelo braço e encoxar uma garota no corredor da balada ou ofender uma moça que se recusou a responder às tentativas de aproximação. Esses comportamentos, porém, são tão frequentes em algumas festas que parte dos frequentadores sequer identifica como um problema esse exercício de poder sobre as mulheres.


Em uma apresentação no evento de palestras TEDx São Paulo, a também jornalista Juliana de Faria, fundadora do grupo feminista Think Olga e da campanha Chega de Fiu Fiu, começa sua fala contando um dos relatos que o site da iniciativa recebeu, quando pediu às mulheres que compartilhassem casos de assédio sexual que sofreram em lugares públicos. A história é a de uma garota que, em um bloco de carnaval, foi agarrada, quase beijada à força e depois empurrada e chutada por se recusar a “ficar” com o homem que a assediou. Ela conta que procurou um policial para reportar o ocorrido, mas não encontrou. Abalada, foi para casa chorando, enquanto o sujeito que praticou o assédio continuou no bloco, se divertindo com os amigos e provavelmente fazendo o mesmo com outras mulheres, ela conclui.


Para mapear esse e outros tipos de abordagem abusiva, o Think Olga criou um mapa interativo de algumas das maiores cidades brasileiras, que registra data, local e descrição do assédio, como forma de gerar dados sobre o tema e pressionar empresas, governos e sociedade a combater a violência contra a mulher. A organização também produziu uma cartilha, em conjunto com a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, sobre como as mulheres podem identificar situações de assédio em lugares públicos e agir, caso isso aconteça.


“Consentimento é uma palavra importante nesse contexto. Nossa sociedade não está acostumada a trabalhar com esse conceito. Quando a gente diz aos homens que eles podem paquerar se houver consentimento, eles não entendem muito bem o que isso quer dizer. Como sociedade, precisamos amadurecer esse conceito e falar mais sobre isso”, disse Juliana, em uma entrevista para o Blog do Veduca.


Organizadores de festa no Recife tomaram medidas contra o assédio na balada


Outra ação para combater o assédio na balada partiu dos organizadores de um dos mais conhecidos festivais de música do Recife, o Coquetel Molotov. O festival é realizado há 15 anos na capital pernambucana e reúne uma mescla de músicos de fama global com talentos em ascensão nos cenários nacional e estadual. Derivado de um programa de rádio que promovia “música alternativa”, o evento segue apresentando bandas de rock, indie, rap e música experimental.


A edição de 2018, realizada no Caxangá Golfe Club do Recife, reuniu 8 mil pessoas, em sua grande maioria jovens de 18 a 30 anos.


“Recebemos mais mulheres do que homens, mas há um publico LGBTQ muito grande. É uma galera politizada, consciente, que consome música e gosta de novidades”, define Ana Garcia, co-organizadora do festival.


O perfil do público já garantia um ambiente relativamente tranquilo para as mulheres que frequentam o Coquetel Molotov, mas Ana diz que eles viram a oportunidade de fazer mais, em relação à prevenção do assédio na balada.


“O festival é um momento em que reunimos muita gente e vimos que trabalhar esse tema seria uma oportunidade de educar tanto o público quanto nossas equipes. Os funcionários do Molotov atuam também em vários outros tipos de evento, e achamos que trazer o assunto para discussão abriria a cabeça deles e ajudaria a criar uma cultura de respeito para a cena da música”, explica a co-organizadora.


Os responsáveis pela festa convidaram, então, a Women Friendly, consultoria especializada no tema, para desenvolver atividades simples, voltadas ao público e aos funcionários do evento. Ana comemora os resultados: com base nos contatos com frequentadoras via Facebook e consulta no próprio festival, diz que o Coquetel Molotov tornou-se uma festa livre de assédio sexual.


“Não tivemos um registro de assédio”, ela afirma.


Veja a seguir as três principais iniciativas que Ana Garcia e sua equipe tomaram para chegar a essa conquista.


Ações pré-festival nas redes sociais


Algumas semanas antes do evento, o Coquetel Molotov começou a publicar posts no Facebook e no Instagram explicando que assédio incomoda e que o festival queria garantir um ambiente livre de abordagens violentas contra mulheres e LGBTs.


Os textos foram escritos por Ana Addobbati, do Women Friendly, e tinham como foco a conscientização de que todos mundo queria se sentir bem naquele espaço.


“É um festival onde a atração principal é o público, eles e elas têm que saber que estão em uma área segura, que podem vestir o que quiserem e não serão incomodadas por isso”, diz Ana.


Um desafio nessa comunicação era evitar que o discurso se tornasse ativista e o festival perdesse o espírito de diversão e liberdade, de acordo com a co-organizadora. Por isso, uma forma de abordar o assédio sexual foi inseri-lo em um contexto mais amplo, de valorização da diversidade.


“É um lance orgânico, não queremos forçar a barra no discurso ou levantar bandeira, mas conscientizar com tranquilidade. Depois da festa, recebemos comentários muito gratificantes sobre como é bom estar em um festival seguro”, ela conta.


Preparação dos funcionários


O Coquetel Molotov empregou 250 pessoas, entre seguranças, caixas e funcionários do bar. Essa foi a equipe que esteve em contato direto com o público e que, por isso, precisava estar preparada para identificar situações de assédio contra as frequentadoras e coibir esse comportamento.


“O garçom e o segurança muitas vezes querem proteger a mulher contra o assédio, mas não sabem como fazer e têm medo de interferir na abordagem, porque trata-se de dois clientes interagindo. É preciso desconstruir na cabeça das equipes a ideia de que quem paga tem direito a fazer o que quiser”, afirma Ana Addobbati, do Women Friendly.

Ela foi a responsável pela conversa com os funcionários realizada no dia do festival, algumas horas antes de o evento ter início. Ana Garcia explica que o ideal seria treinar os colaboradores dias antes do evento  e propor uma série de conversas, mas como os funcionários das festas são quase sempre terceirizados e as empresas responsáveis por eles só definem quem participará de um evento no dia anterior, o bate-papo no próprio local do festival foi a solução.


Em 2017, Addobbati conheceu pessoalmente a equipe e transmitiu suas ideias sobre prevenção e combate ao assédio. No ano seguinte, a especialista gravou um vídeo, que foi transmitido aos funcionários e, em seguida, discutido.

O bate-papo esclarece que os funcionários podem intervir, em caso de assédio, e explica formas eficientes de abordar o assediador.


Ampliação da visibilidade dos seguranças


Além de conscientizar público e equipe, os organizadores do Molotov agiram no próprio dia da festa, por meio de uma atitude simples: sinalizaram bem onde estavam posicionados os seguranças da festa, para que uma mulher que eventualmente sofresse assédio ou passasse mal soubesse a quem recorrer.


“Festival seguro é aquele em que as coisas ficam claras, você entende como tudo funciona e o que você pode fazer se precisar de ajuda”, comenta Ana Garcia.


Conheça mais iniciativas contra o assédio na balada


– Assédio na balada é uma das facetas do assédio sexual na sociedade brasileira. O Blog do Veduca já abordou esse tema sob vários aspectos. Veja a seguir os nossos posts.


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O vídeo abaixo, produzido por alunos da PUC-Campinas, mostra casos de assédio na balada e traz uma importante discussão sobre as raízes desse tipo de violência.